Inteligência

É tipicamente humano rotular, definir ou conceituar coisas, ações e acontecimentos. Assim impomos significados e damos sentido à trama existencial, estabelecendo uma sequência de começo, meio e fim ao devir de modo a ajustar coisas, ações e acontecimentos no interior da temporalidade humana.

O passado passa a representar, nessa estrutura significativa, a memória subjetiva ou coletiva das coisas, das ações e dos acontecimentos que deixaram pegadas no presente, ao passo que o futuro representa a consumação, antecipada mentalmente no aqui e agora, das coisas, das ações e dos acontecimentos que virão, tanto as que desejamos, quanto as que tememos. O significado – que envolve o sentido – deriva desse jogo mental.

Seja ele profano ou sagrado, científico ou mítico, o significado é construído sob a perspectiva de uma única espécie, a humana. No entanto, ao invés de reconhecer seu particularismo, humanos o estendem à realidade como um todo, do átomo ao cosmos, do reino mineral ao vegetal, animal e espiritual, de si mesmo para outros humanos.

Humanos raramente duvidam do significado por eles construído e, portanto, de sua capacidade de conhecer as coisas, ações e acontecimentos como realmente são. Humanos raramente notam a distância entre a realidade e suas representações mentais, confundindo e misturando sua perspectiva particular com as coisas, ações e acontecimentos em si. Identificam o teatro de suas operações mentais – os personagens, as paisagens e a trama temporal – com a própria realidade, sem notar que, em última instância, a realidade nada mais é do que o produto de sua imaginação particular, isto é, humana.

De onde provém tamanha certeza de que o significado é a própria realidade? O que dá robustez às representações mentais sobre si mesmo, sobre o universo e até sobre a suposta divindade? De onde vem a fé inabalável na capacidade de conhecer as coisas, as ações e os acontecimentos como realmente são? Por que não duvidamos que nossas representações mentais são apenas isso, um modo, tipicamente humano, de vestir e adornar o real com objetivos e meios destilados pelas necessidades e desejos da espécie, isto é, particulares, limitados e, portanto, relativos? 

Nenhum mistério aqui: o significado e o sentido derivados dos rótulos, definições e conceitos são herdados e reforçados pelos pares, a comunidade de mentes que trocam e reforçam suas impressões, pensamentos, convicções – seja por meio das relações intersubjetivas ou de representações culturais: mitos, histórias, arte, filosofia, ciência.

Quer isso dizer que o significado, seja ele individual, grupal ou da humanidade como um todo, não passa de ilusão? Quer isso dizer que nós humanos estamos enredados num sonambulismo coletivo que nos faz enxergar apenas miragens?

Não exatamente!

Acontece que esse é o modo humano (típico) de conhecer coisas, ações e acontecimentos, sua maneira de lidar consigo mesmo e com o universo. Ele permite certa previsibilidade, estabelece finalidades e, em função delas, arquiteta os meios. Quando digo “modo”, quero dizer que é apenas um entre infinitos possíveis: o viés determinado pela singularidade das necessidades e dos interesses tipicamente humanos. O modo humano de conhecer jamais será universal, muito menos o conhecimento “em si” da realidade.

Sem essa perspectiva, caímos na tentação de reduzir o real – que paira além dos pensamentos, palavras, rótulos, definições e conceitos, inclusive os matemáticos – ao que enxergamos através de nossos antolhos mentais. Sem essa perspectiva, sujeitamos modos atípicos de enxergar as coisas como defeituosos, insuficientes, irracionais, tresloucados. Sem essa perspectiva, namoramos com a intolerância, com a exclusão e até com o extermínio de quem enxerga as coisas, as ações e os acontecimentos atipicamente. Sem essa perspectiva, nos condenamos e à própria humanidade a sermos o que temos sido até agora: homo homini lupus.

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