Identidade

O autismo não define um ser humano – tampouco a trissomia do 21, o TDAH ou a superdotação. A aparência física, a posição social, o gênero, a orientação sexual ou as convicções ideológicas conferem alguma identidade, mas também não o definem. A rigor, nenhum atributo o define, a não ser pelo ângulo típico, seja ele do senso comum ou da ciência.

O que define o ser humano é sua vulnerabilidade, mortalidade e atividade mental.

Incompleto, ele passa a vida tentando se superar, projetando um ideal de si mesmo que corresponda às expectativas sociais. Ele depende dos outros e, é claro, fará de tudo para evitar rejeições. Assume um papel e dá tudo de si para não sair do roteiro, às vezes podando-se, outras vezes fingindo ser quem não é.

Boa parte da atividade mental de um ser humano consiste em projetar, para si mesmo e para os outros, a autoimagem forjada no mundo dos sonhos e ser, de algum modo, reconhecido por ela, comportando-se de acordo com a identidade assumida. Para manter a coerência, ele a defende com unhas e dentes, dentro e fora de si mesmo, mas nem sempre consegue manter o encanto e evitar que suas contradições revelem o que realmente é: um ser limitado, incompleto e mutável tentando a todo custo provar o contrário. 

Como quase todo mundo, eu também represento papeis, mas não me identifico com nenhum deles. Sou marido e pai em minha casa, sou professor na escola, sou idoso na fila preferencial, assim como já fui filho, aluno e jovem. Minha história pessoal parece coerente: a criança se tornou adulta, ganhou a vida, constituiu família, perdeu pessoas queridas e sabe que um dia deixará de existir.

Mas não me identifico com nada disso, a não ser socialmente. Dentro de mim mesmo enxergo um ser movediço, que é e não é ao mesmo tempo, que escapa a definições. Não me sinto embaraçado pelo que vejo – muito pelo contrário, o zen é um ato de liberdade.

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