Olá!

No fundo todo humano é atípico, mas pouca gente olha suas profundezas.

Visível na superfície, porém, é o humano típico, mais conhecido como normal. Ele nasce, goza de um breve período de infância, compete e progride ao longo da juventude, se estabelece na maturidade e luta contra a velhice. Em seguida, morre, quando não antes. Na sua curta existência, realiza obras boas e más, para si e para os outros: pensa, sente, constrói e destrói inspirado em crenças e valores compartilhados pelo grupo ao qual pertence. Ele está integrado ao rebanho, mesmo quando é minoria social, étnica ou cultural.

Existe também o humano atípico, estranho à maioria. Dependendo do que realiza ou do que é incapaz de realizar, é reconhecido como gênio, aberração ou, simplesmente, um coitado. Às vezes se destaca pela santidade ou inteligência, como Jesus, Buda ou Einstein; outras vezes, pela insanidade ou crueldade, como Hitler, Mengele ou Ted Bundy.

Há, porém, um imenso universo de atípicos que raramente se destacam, sendo notados e, por vezes, subestimados simplesmente por não pensar, sentir e agir segundo a norma. Eu pertenço a esta categoria de pessoas e, parafraseando uma socióloga famosa, este é meu lugar de escrita!

No entanto, me recuso a pertencer a um lugar, a ser refém de um foco ou de fronteiras temáticas. Por isso, quando digo “lugar de escrita”, não reivindico uma identidade, um espaço enunciativo legitimado pela minha condição social, neurológica ou mental.

Aliás, não reivindico coisa alguma, apenas escrevo.


Dizem que o autismo isola, que o zen integra. Não me sinto isolado pelo autismo, não considero o zen um meio de integração. Eles apenas sugerem perspectivas, não dificultam nem facilitam a lida pela sobrevivência, não no meu caso.

Sobreviver é uma arte.

O grande desafio não é ser bem-sucedido, estabelecer reputação ou ganhar na loteria do amor, é seguir com a trama e, se possível, encerrar o capítulo com dignidade. Penso nos romances policiais, nas histórias com heróis e heroínas. Seguir pistas, investigar motivações e revelar o culpado são pretextos, difícil mesmo é escapar das ciladas. Sobreviver é tarefa assaz perigosa e, quanto mais longa a vida, maior o número de contusões. O perigo só termina com o epílogo, quando a obra perde a graça.

Enquanto isso, sobrevivo do meu salário e, quando escrevo, o faço para ler na tela recortes de meu mundo interior – de impressões e pensamentos relativamente elaborados. Em suma, escrevo para mim mesmo, mas quem sou eu?

Me fiz essa pergunta na adolescência e, inspirado nela, mergulhei bem fundo até me estabelecer no leito, de onde às vezes subo à superfície para dar uma espiada e ver como a banda toca.

O autismo entrou na minha vida em 2007, quando eu tinha 42 anos de idade, ao passo que o zen surgiu bem antes, na adolescência. 

O autismo era tema tabu quando fui diagnosticado – minha única referência a respeito era o filme Rain Man. Hoje, o número crescente de diagnósticos transformou o autismo em assunto recorrente em séries de TV,  filmes, artigos, livros e nas redes sociais. Excetuando-se pesquisas cuidadosas, as generalizações são abundantes, padronizando e banalizando situações que são absolutamente particulares. 

Nenhum autista é igual ao outro. Não me refiro somente ao nível de suporte, que os especialistas dividem em três: leve, moderado e severo. Refiro-me também ao fato de que cada autista é um indivíduo com temperamentos, preferências, interesses, vivências e visões de mundo muito particulares. 

Identificar alguém como autista é um absurdo. O rótulo mistifica uma personalidade cuja complexidade é violentamente apagada, o ser humano em questão sendo estigmatizado pelo diagnóstico. É o mesmo que dizer “cancerígeno” ao apresentar uma pessoa portadora de neoplasia maligna. 

Se já não bastasse o rótulo, alguns filmes e seriados protagonizados por personagens autistas transformam um multiverso de diferenças em pessoas engraçadinhas e quase sempre dotadas de altas habilidades cognitivas, o que raramente é o caso. 

Enfim, outro dia ouvi uma psicopedagoga dizer com as melhores das intenções que não conseguia entender a mente autista. E quanto à própria mente, será que ela entende?

Para mim não faz nenhuma diferença, seja típica ou atípica a mente é uma incógnita que cativa, deslumbra, cria ou desfaz ilusões, acerta e erra – enfim, molda o mundo à minha volta, de modo que recorro ao zen não como panaceia, mas como pedra de toque da verdadeira natureza do eu.

Quando penso na palavra zen, um amplo repertório de significados brota da mente. Ela está nos dicionários, em textos religiosos, nas prateleiras das livrarias e no vocabulário de muita gente. Às vezes é tratada com seriedade, outras vezes em tom jocoso. É apresentada com diferentes acepções por monges e monjas, por arqueiros e espadachins, por mecânicos, terapeutas e até por executivos, neste caso como estratégia de negócios.

O zen, contudo, não é uma palavra nem, tampouco, estilo de vida, técnica de meditação, roteiro para uma vida próspera e feliz. Existem, é claro, professores que ensinam sobre o zen, assim como textos que o representam, mas as doutrinas transmitidas apenas apontam em sua direção, pois o zen não se reduz a definições, ele é experimentado diretamente pela mente, sem envolvimento de palavras.

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